Aníbal Bastos

DESPEITO

Vê lá se ganhas mais jeito,
Ao demonstrares o despeito
Que sentes queimar-te a alma!
Esse sentimento baixo,
É próprio de fêmea, ou macho,
Que com o cio perde a calma!

 

Vê lá se ganhas mais jeito
E corrige esse defeito,
De quereres parecer menina!
Porque a tua aparência,
Não demonstra inocência,
Nem tão pouco gente fina!

 

Vê lá se ganhas mais jeito,
Ou um dia a causa-efeito,
Tira-te a casca de ostra!
Segura a saia, ou o vento
Levanta-ta, e num momento,
Ficas com tudo à mostra!

 

Vê lá se ganhas mais jeito,
E deixa dentro do peito
Certas formas de legenda!
Arranja maneira prática,
E usa melhor a gramática,
Para quem te ler, entenda!

 

Vê lá se ganhas mais jeito
E, se segues o preceito
Que atrás está exposto!
Porque diz um ditado velho:
Que por vezes um conselho,
Pode evitar um desgosto!

 

Vê lá se ganhas mais jeito
E se te dás ao respeito,
Aos outros e a ti mesma!
Porque a tua forma de ser,
Vai levar-te, podes crer,
A rastejar como a lesma!

 

DESPEITO

In “HORAS DE INCERTEZA”
Aníbal Bastos

 

MULHER

Mulher, é ser humano diferente
Do homem, pelas leis da natureza;
Se não tem robustez, tem a beleza
E poder instintivo bem presente!

 

Sabe manter o rosto sorridente,
Mesmo se invadida de tristeza,
Ou disfarçar num gesto de pureza,
O veneno mortal duma serpente!

 

Sabe acender o fogo da paixão,
Ser no mar o cantar duma sereia
Que faz bater mais forte o coração!

 

Sem poder fugir à realidade,
O fazer-lhe justiça na plateia,
Era chamar-lhe: mãe-humanidade!

 

MULHER

In “PARA ALÉM DAS PALAVRAS”
Aníbal Bastos

 

 

O TEU CORPO

No teu corpo desenhou-se a imagem,
Duma floresta virgem sempre em flor,
Donde brotou perfume de luz e cor,
Com um odor intenso de flor selvagem!

 

No teu corpo acendeu-se a coragem,
Da chama que sustenta e dá calor
À vida, a quem na tela do amor, 
Sonha ter o arco-íris por paisagem!

 

No teu corpo ouviu-se o fragor do mar,
Nas noites com ondas de marés vivas,
Tornadas em Sol ardente a escaldar!

 

No teu corpo, meu amor, só nós os dois
Sabemos que fomos almas cativas,
Dum amor sem ter antes, nem ter depois!

 

O TEU CORPO

In “PARA ALÉM DAS PALAVRAS”
Aníbal Bastos

 

EU

Aprendi a ler, pegando na soga dos bois,
A gramática, à rabiça do arado!
A pôr-me a pé, sem o Sol estar acordado,
A ir descansar depois do Sol, muito depois!

 

Aprendi a dizer sim, ou não! Nunca: Pois, pois!
Olhar o mundo, com olhos de acordado,
A não tombar para um, ou qualquer lado,
Sem verificar, se um mais um, somava: dois!

 

Em livros, por biblioteca emprestados,
Li muito, desde o “mundo de aventuras”
Aos poetas e prosadores mais laureados!

 

Em nenhum encontrei a douta ciência,
Mas conheci outras gentes, outras culturas…
Mas ao meu mestre, chamo-lhe: experiência!

 

EU

In “HORAS DE INCERTEZA”
Aníbal Bastos

 

 

SEM ABRIGO

Vives na triste miséria
Onde há tantos miseráveis
Com uns sorrisos amáveis
Fingindo ser gente séria!

 

Saiu-te o sangue das veias 
E do teu corpo o suor,
Para manter barrigas cheias
De quem te mentiu melhor!

 

Que importa que passes fome
Nem teres nada neste mundo!
Não passas dum Zé sem nome
Por alcunha: o vagabundo!

 

Dormes debaixo da ponte,
Ou do vão duma escada,
Pior que um bicho do monte
Que tem a toca abrigada!

 

Nas ruas pedes esmola!
Já não passas dum mendigo,
Dos que não usam sacola!
És chamado: sem-abrigo!

 

A barba esconde-te o rosto,
Para ninguém te conhecer,
Ou apenas para esconder,
As marcas do teu desgosto!

Só te apontam os defeitos,
Sem desculpas e sem pausas!
Julgam-te pelos efeitos,
Esquecendo-se das causas!

 

Talvez um dia, quem sabe,
Noutro mundo diferente,
A tua miséria acabe,
E, comece para outra gente!

 

SEM ABRIGO

In “VERSOS IMPERFEITOS”
Aníbal Bastos

 

 

PÁGINAS

Nas páginas que temos na memória,
Escondidas no fundo das gavetas,
Guardamos as passagens mais secretas,
Que só nós conhecemos a história!

 

São páginas que não cantam vitória,
Por nelas haver linhas menos rectas,
Onde para alcançarmos certas metas,
Não seguimos p’la recta trajectória!

 

Nestas páginas constam os segredos,
Que lutam para não ser desvendados,
Para não desvendar os nossos medos!

 

Estas páginas são os nossos sentidos,
A pedir que alguns passos mal dados,
Não descansem sem serem corrigidos!

 

PÁGINAS

A. Bastos (Júnior)

 

 

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Biografia de Aníbal Bastos
 

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