MÃE PRETA de Celeste Cortez

E começa assim:

I

Moçambique — Chimoio, Vila Pery:

Apesar da dor que sentia no peito, que mal me deixava respirar, não poderia parar. O sol que, quando deixara a casa do Simião, parecia uma enorme bola de fogo amarelo-avermelhada, tinha já desaparecido para os lados da Serra do Vumba.

Vezes sem conta, tinha ficado encantada com aquele cenário deslumbrante: os reflexos daquele sol dourado a incidir na pequena barragem da farme davam às águas um tom de ouro rosado, mas, naquele fim de tarde de domingo, para mim, nada mais tinha encanto.

Estava a ficar escuro como escuro tinha ficado o meu coração quando o Simião me expulsou, de chamboco na mão, vergastando-me nas costas, no corpo, por onde me apanhava.

Ele sempre me maltratou desde o casamento, primeiro verbalmente depois fisicamente. Em mais de quatro anos de sofrimento, apesar da tareia, dos insultos e dos vexames sofridos às suas mãos, eu alimentara esperanças de vir a ser mãe — razão para continuar na sua casa — mas o tempo foi-me fazendo perdê-las.

 

Tinha deixado de ser humanamente possível continuar ali, nunca foi possível ser feliz a seu lado, por mais que tivesse tentado, perdoando as agressões.

Tantos anos de sofrimento eram demasiado para qualquer mulher, por mais que quisesse tentar encobrir tanta maldade do seu homem, mas a minha consciência, sempre me atormentava, segredando-me que a mulher africana devia submissão a seu marido, porque ele pagara o lobolo a seus pais. E fui ficando.

Com o corpo dorido, e com os olhos inchados de chorar, na ânsia de fugir o mais depressa possível, enveredei por caminhos selvagens para chegar mais depressa ao meu refúgio: a casa de minha mãe. Antes, sempre que a visitava, se o Simião não me levasse na carrinha, ia acompanhada por algum trabalhador da farme por atalhos que essa pessoa conhecia. O normal seria ter ido pelo caminho de terra vermelha da nossa África, calcado e repisado, por onde passavam os carros que ali se dirigiam, embora tivesse de percorrer uma distância maior, mas o receio de que ele mandasse os seus capangas atrás de mim para me fazer regressar àquele inferno em que tinha vivido, fizera com que entrasse por um atalho que me pareceu conhecido e, afinal, tinha-me embrenhado no mato selvagem.

Com grande dificuldade, apelando a todas as minhas forças, mal vislumbrando os arbustos que me iam magoando quando tentava ultrapassá-los, caindo aqui, caindo ali, seria melhor do que ficar com aquele homem horrível, que me daria tareia até não aguentar mais porque, com a curageira, também ele acabaria por ficar sem forças e cairia exausto, como sucedeu durante os anos que com ele vivi.

Andava sem saber por onde, parecia-me que, às vezes, andava às voltas porque era picada pelo mesmo tipo de arbusto. Tinha perdido a orientação.

Não passei perto de nenhuma aldeia africana, não havia com certeza nenhuma por ali, não cheirava ao fumo da fogueira que àquela hora as mulheres da minha raça teriam acendido para fazer a comida.

Comecei a ouvir uivos de animais selvagens, onde se destacava o uivo que eu bem conhecia, o das quizumbas, dotadas de fortes mandíbulas com dentes grossos e pesados que lhes permitiam esmagar os ossos de carcaças deixadas por outros predadores. Senti um arrepio percorrer-me o corpo. Se as hienas podiam esmagar as ossadas de outros animais, o que fariam com os meus ossos, se me apanhassem?

Leões não estariam também muito longe. Se o bondôro macho, aquele de longa juba para proteger o pescoço no combate com outros animais selvagens, era capaz de caçar grandes mamíferos como zebras, javalis e antílopes, supunha que a mim até me comeria só com o olhar. Arrepiei-me.

Teria de continuar por aquela selva que parecia não ter fim, onde só havia animais ferozes que me poderiam atacar.

E cobras, será que as havia por ali? Onde é que não se encontravam na selva africana? Um dia, um caçador que foi visitar a farme do Simião disse que as cuspideiras tentavam atirar veneno para os olhos das suas vítimas, que ficavam cegas. Que elas tinham uma cabeça curta e aguçada, com grandes olhos pretos, ao contrário das mambas, de pele verde, que também tinham olhos pretos mas pequeninos, penetrantes, e por vezes estavam em cima das árvores talvez para passarem despercebidas, mas que eram também muito perigosas. Se eu fosse atacada por uma cobra destas, ninguém me poderia valer. Se tinha de morrer, seria preferível ser às mãos do Simião. Teria sofrido muito, mas ser comida viva por um animal feroz, ou contorcer-me com dores enquanto o veneno de uma inhoca estivesse a atuar até me matar ou ficar cega, seria tremendamente mais doloroso.

Porque havia de morrer assim? Não o merecia, nunca tinha feito mal a ninguém. A minha morte a ninguém beneficiaria, não ajudaria a mudar nada no mundo. No dia seguinte, o sol não deixaria de nascer à hora habitual. As galinhas, apesar de serem minhas, não me notariam a falta, sairiam contentes da capoeira quando o muana Tóti — Bobo era o nome que o Simião e os amigos lhe chamavam, troçando — lhes fosse deitar o milho. As cabras não estranhariam porque continuariam a ser mungidas por ele, o leite delas seria levado como sempre para ser vendido na vila, na loja do Sr. Aristides.… … …

Estão todos convidados para o seu lançamento, dia 27 do corrente mês (5ª. Feira), pelas 19H30 horas, na ALA -ACADEMIA DE LETRAS E ARTES, na Avenida da Castelhana nº.13 (perto da Rua de Madrid), no Monte Estoril.

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Pode ser adquirido directamente à autora por € 14.99 ou, com portes de correio para Portugal, por € 16.99 escrevendo para celeste.cortez@hotmail.com

Visite celestecortez.blogspot.com/

 

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Leandro Campos Alves Caxambu MG / Liberdade MG. leandrocalves@hotmail.com