O Capelo.

 

 

 

        A vida de disléxico é engraçada mesmo, não é tão problemática como todos pensam.

       Temos algumas limitações, mas que com muito bom humor se tornam piadas, ficando eternizada na memória de nossos amigos e familiares.

       Vejam como as coisas acontecem em nossa vida, alguns anos atrás meu irmão mais velho estava terminando sua faculdade, ele estava todo alegre com aquele momento, suas dificuldades foram muitas para alcançar a conclusão de seu tão sonhado curso acadêmico; e a tão sonhada formatura estava com data marcada.

        Esta formatura não era apenas a formatura de um homem só, mas sim, a formatura de uma família inteira, que sofreu, torceu e acompanhou seus estudos. Como grande final; lógico; não poderíamos deixar de comemorar em grande estilo sua conquista.

        O baile de formatura estava marcado para o final do ano, e para minha felicidade, eu iria receber toda minha família em minha casa, afinal, eu devo esclarecer que sou o único irmão que mora fora de minha cidade natal, e por capricho do destino ou da vida, quis Deus que ele estudasse na cidade que moro, pois em nossa pequena cidade natal, não temos curso superiores, esta distância justifica algumas das dificuldades que meu irmão encontrou em seus estudos.

         No dia do baile minha casa encheu de amigos e familiares, o churrasco começou no café da manhã e em nenhum momento retiramos a mesa com guloseimas e petiscos.  Com maior carinho e prazer recebemos quase trinta pessoas, até mesmo meu cunhado que foge de reuniões estava presente.

         Ao cair a tarde todos estavam ansiosos pela missa de colação de grau, e o tão esperado baile, e sempre que nos reunimos a festança é geral, ainda mais com uma comemoração desta.

         O salão de festa estava muito bem ornamentado, muita gente bonita, e muita segurança. Logo que chegamos dirigimos a nossa mesa, e com a sutileza mineira, consegui levar para dentro da festa a boa cachaça de Minas.

         Meu irmão é um homem alto, vistoso, e um “gentleman”, alguns amigos nossos até fala que se existir próximas encarnações, eles gostariam de voltar como mulheres, só para casar com ele rsrsrs.

         “Ele vai ficar PU...da vida com este trecho”, mas é fato, que sua bondade e gentileza sempre foi seu forte, e para completar a descrição de sua fisionomia, nossa herança hereditária só o presenteou com um calvície, que o deixou com seu diferencial e carisma mais marcado.

         Mas coitado, sua calvície é lisinha e brilhosa, raro achar um único fio de cabelo nela, e foi esta calvície que trouxe a história da dislexia e o momento de alegria e risadas no salão, que mesmo após tanto tempo é lembrado com carinho por minha irmã, sempre que tocamos no assunto, formatura.

         Estávamos reunidos ao redor de nossa mesa, a música no recinto estava baixa, pois o baile ainda não tinha começado, os formandos estavam chegando para começarem o ritual do festejo. E como manda a etiqueta, os futuros advogados teriam que entrar com as suas Becas negras, demonstrando o respeito e orgulho a nova profissão.

         Mas enquanto aguardávamos o inicio dos rituais, meu irmão estava em nosso meio, afinal, éramos parte daquele momento.

         Na descontração da conversa, notei que meu filho caçula estava correndo para o centro do salão, com parte da roupa de formatura de meu irmão.  Já acomodado em meu lugar, alertei os demais sobre a arte de meu filho, com a proposital intenção de ver se um de meus familiares fosse buscá-lo no meio do salão.

         Nesta época meu menino estava com seus nove anos de idade mais ou menos, e vamos chama-lo de Alisson. 

         Então chamando a atenção de todos comuniquei...

___  Alguém pode ir buscar o Alisson no salão, pois ele pegou o capelo do nosso formando e pode estragá-lo.

         Olhei para todos, que demonstravam olhares de desentendimento e incompreensão, estava claro que ninguém entendia nada do que eu estava falando, pois todos estavam olhando para a careca de meu irmão.

         Meu cunhado ainda brincou.

___  Corre atrás do Alisson, pois ele achou o cabelo que nosso formando tinha perdido rsrsrs.

         Afinal careca não tem cabelo mesmo.

         Eu retruquei e retornei a falar.

___   Larga de ser bobo, o Alisson esta com o capelo de nosso irmão.

         Ah! Dislexia presente da vida!...

         Reparei que todos ainda não haviam entendido minha afirmação, pois na concepção de todos era lógico que eu estava pronunciando errado.  Eu queria falar “cabelo”.

         Minha irmã percebeu que eu não poderia estar falando errado diante a minha afirmação, e nem enrolando a língua depois de tomarmos alguns trinques.  Naquele momento ela viu correndo pelo salão meu menino, e em sua cabeça o chapéu de formando de nosso irmão.

         Foi então que ela entendeu, e respondeu a todos na mesa.

___  Olham o Alisson no meio do salão com o capelo na cabeça.

         Ninguém entendeu nada, até mesmo minha irmã pronunciando errado, será que era contagiosa essa tal de dislexia, rsrsrs.

         Foi com a afirmação de meu irmão formando, que todos compreenderam que capelo é o nome dado ao chapéu que completa a vestimenta dos acadêmicos.

         Se falar errado é ser disléxico, sou importante, pois tenho certeza que quem nomeou aquele chapeuzinho preto que o formando leva na cabeça completando seu traje de formatura, também era disléxico rsrsrs.

         E o tal Capelo também cobre a cabeça, como o cabelo que recebemos ao ganharmos o diploma da vida.

 

 

Leandro Campos Alves

 

 

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Leandro Campos Alves Caxambu MG / Liberdade MG. leandrocalves@hotmail.com