O Peralta.

 

 

 

             Lembro bem que em minha infância, trabalhávamos deste muito cedo, cada um em casa tinha seus afazeres, e como não poderia ser diferente até mesmo meu irmão caçula, Tiãozinho, tinha as suas obrigações.

            Ele ajudava nosso pai no labor de nosso sitio, e o causo aconteceu num dia que nosso pai não pode ir trabalhar e pediu ao seu irmão, “nosso tio Francisco”, que fosse em seu lugar.

            O dia passou como outro qualquer, mas um fato marcaria aquela tarde para sempre.

             As horas passaram e ao anoitecer meu irmão já havia chegado e foi estudar, foi quando meu pai ouviu seu outro irmão e sua cunhada chamá-lo, pois estavam à procura de Francisco, seu irmão que havia saído cedo para o sítio e até aquele momento não havia retornado.

            Então eles decidiram ir ao sítio para ver o que estava acontecendo, acreditando que talvez pudesse ser algum animal doente e provavelmente este era o motivo do atraso.

            Estranhamente lá chegando puderam observar ao longe que as luzes estavam acessas, e as vacas estavam quase todas no curral parecendo que ainda não tinham sido ordenhadas, pois elas mugiam e seus bezerros presos nos estábulos replicavam seus sinais.

            Eles passaram entre os animais no curral confirmando suas suspeitas, pois as vacas ainda não tinham sido ordenhadas, começaram a chamar por Francisco, que logo na segunda chamada, respondeu.

            Sua voz vinha de dentro do estábulo, porém visualmente não havia ninguém lá dentro, meu pai desconfiou que seu irmão pudesse ter passado mal e caído no silo, então todos se dirigiram em uma rápida caminhada para o local referido.

            Lá chegando viu dentro daquele deposito cilíndrico, construído verticalmente por uma perfuração no solo com medidas de aproximadamente quatro metros de diâmetro por cinco metros de profundidade, a figura de Francisco.

            Ele estava muito bem por sinal, só tinha a aparência furiosa de um animal preso.    No momento em que foi encontrado ele estava sobre um cume de silagem, na qual em sua tentativa de fuga amontoou-as em um canto, chegando à altura próxima à abertura da borda do silo.

            Eram meados de setembro estes depósitos são feitos para armazenarem extratos vegetais de milho triturados, que servirão para alimentação dos animais na época da seca, sendo que à medida que o trato é tirado o silo vai aprofundando-se ao encontro de sua base de construção, necessitando muitas vezes do auxílio de uma escada para entrar no mesmo.

            Exatamente por este motivo, meu pai achou estranho quando viu a escada em descanso na horizontal sobre a extremidade do silo.

            E se seu irmão estava lá dentro, como ele conseguiu tirar a escada?

            Francisco sempre foi um homem humilde, com um forte caráter e muito honesto, no entanto um tanto explosivo, estava sempre disponível quando precisassem dele, porém não aceitava desentendimento por menores que fossem sem questionamento e réplica, chegando a brigar literalmente por suas ideologias.

            Temperamento este por se dizer igual à de seu sobrinho, que com ele estava.

            Meu pai desceu a escada no silo para que Francisco pudesse ser retirado, então meu pai perguntou a Francisco como ele conseguiu fazer a artimanha de se prender lá dentro.

             Em fúria Francisco começou a falar sobre o causo, chamando meu pai pelo nome.

            ¨ Carlos você tem que corrigir este seu filho, porque ele é muito bom de serviço e prestativo quando ele quer, porém tem uma personalidade impossível.  Acredita você que eu desci no silo para encher os balaios de trato, deixando-o aqui do lado de fora para puxar os mesmos cheios por esta carretilha que fica fixa no espigão do telhado, isto era entorno das quinze horas, quando eu menos esperava nos desentendemos feio, eu queria até dar um corretivo nele.    Entretanto quando fui pegar as ferramentas e encostá-las para subir as escadas, percebi uma sombra se locomovendo atrás de mim, mas pena que percebi isto um pouco tarde.

            Tiãozinho quando viu que eu ia subir e lhe dar uns tabefes, ele aproveitou o meu descuido e retirou rapidamente a escada, ainda por cima falou que estava fazendo aquilo para que eu pudesse refrescar a cabeça, e que a noite seria uma boa conselheira.

            Achei no início que ele não teria coragem de me deixar preso aqui, mas com o passar das horas descobri que ele já tinha até ido embora.

            Em certo ponto tenho que admitir que o moleque tenha caráter e personalidade, apesar de tudo. ¨

            No momento que Francisco se encontrava já do lado de fora, ainda trêmulo com a pele vermelha e ofegante como um touro, eles tiveram um acesso de risos.

            Carlos pediu ao seu irmão desculpas em nome de seu filho, prometendo-lhe que falaria com Tiãozinho sobre o assunto, no mesmo tempo que contou outra passagem que aconteceu no sítio e teve com personagem principal o próprio filho arteiro.

 

Copla do Romance Instinto de Sobrevivência.

Leandro Campos Alves.

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Leandro Campos Alves Caxambu MG / Liberdade MG. leandrocalves@hotmail.com